Autoexigência disfarçada de responsabilidade. O peso silencioso de quem tenta ser forte o tempo todo.

Nem sempre a autoexigência aparece como cobrança explícita.
Ela costuma vestir roupas respeitáveis: compromisso, maturidade, responsabilidade.

“Eu tenho que dar conta.”
“Não posso parar agora.”
“É minha obrigação.”

Frases que, à primeira vista, soam funcionais. Adultas. Socialmente aceitas.
Mas que, quando repetidas sem pausa, começam a cobrar um preço alto — no corpo, na mente e nas relações.

A pergunta importante não é se você é responsável.
É a que custo.

Quando responsabilidade vira rigidez interna

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que pensamentos moldam emoções e comportamentos.
E muitos quadros de exaustão emocional estão associados a crenças centrais rígidas, como:

  • “Eu só sou valiosa se for útil.”
  • “Descansar é sinal de fraqueza.”
  • “Se eu parar, tudo desmorona.”
  • “Errar não é uma opção.”

Essas crenças não surgem do nada.
Geralmente se formam em contextos onde houve excesso de exigência, pouca validação emocional ou necessidade precoce de assumir responsabilidades.

O resultado?
Uma pessoa altamente funcional por fora — e profundamente cansada por dentro.

A linha tênue entre dever e exaustão

Responsabilidade é uma qualidade essencial.
Ela organiza a vida, sustenta vínculos e permite convivência social.

O problema começa quando ela deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar como uma regra interna inflexível.

Na prática clínica, isso aparece quando a pessoa:

  • Sente culpa ao descansar
  • Minimiza suas próprias necessidades
  • Tolera sobrecargas constantes
  • Se cobra mais do que cobraria de qualquer outra pessoa
  • Só se permite parar quando o corpo “quebra”

Nesse ponto, não estamos mais falando de responsabilidade — mas de autoexigência crônica.

O que a psicologia diz sobre esse padrão

Pesquisas sobre autocompaixão mostram que pessoas muito auto exigentes tendem a confundir cobrança com motivação.
Kristin Neff demonstra que a autocrítica severa está associada a níveis mais altos de ansiedade, depressão e burnout — e não a melhor performance, como muitos acreditam.

Dentro da Terapia do Esquema, Jeffrey Young descreve padrões como:

  • Padrões Inflexíveis / Crítica Exagerada
  • Autossacrifício

Neles, a pessoa aprende que:

  • descansar é perigoso,
  • pedir ajuda é falhar,
  • e existir sem produzir não é permitido.

Esses esquemas mantêm o indivíduo funcionando — mas à custa de si mesmo.

A armadilha do “eu aguento mais um pouco”

Um dos pensamentos mais comuns em pessoas auto exigentes é:

“Depois eu descanso.”

O problema é que esse “depois” raramente chega.

A TCC chama atenção para esse tipo de pensamento automático, que parece racional, mas sustenta ciclos de exaustão.
Aos poucos, o corpo começa a dar sinais:

  • fadiga persistente
  • irritabilidade
  • lapsos de memória
  • dificuldade de relaxar
  • sensação constante de urgência

Ignorar esses sinais não é força.
É desconexão.

Responsabilidade saudável inclui limites

Ser responsável não é se abandonar.
Não é carregar tudo sozinho.
Não é funcionar no limite como regra.

Responsabilidade emocional também envolve:

  • reconhecer o próprio cansaço
  • respeitar limites internos
  • ajustar expectativas irreais
  • permitir-se descansar sem culpa

Na terapia, esse trabalho passa por identificar crenças rígidas, flexibilizar pensamentos automáticos e construir uma relação mais justa consigo mesma.

Não para “fazer menos”,
mas para viver com mais inteireza.

Um convite à reflexão

Talvez a pergunta mais importante não seja
“Será que eu dou conta?”

Mas sim:

Por que eu acredito que não posso parar?
O que eu temo que aconteça se eu descansar?
De onde vem essa regra interna tão dura comigo?

Essas respostas não surgem sozinhas.
Elas se constroem no espaço terapêutico — com escuta, técnica e cuidado.

✦ Se você se reconhece nesse padrão, a terapia pode ser um lugar seguro para repensar essa relação com a responsabilidade, sem culpa, sem rótulos, sem romantizar o cansaço.

Referências

  • Neff, K. (2015). Autocompaixão: Pare de se Torturar e Deixe a Insegurança para Trás. Fontanar.
  • Young, JE, Klosko, JS e Weishaar, ME (2008). Terapia do Esquema. Artmed.
  • Beck, J. (2021). Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Artmed.

Compartilhe

Veja Mais

Pré-Agendamento

 Preencha os campos abaixo para realizarmos um pré-agendamento onde será posteriormente confirmado via e-mail.