
É comum ouvir que pessoas com TDAH são “intensas demais”, “competitivas demais” ou “viciadas em desafio”.
Mas o que raramente se discute é que, por trás desse comportamento, existe uma explicação neurobiológica consistente.
E ela começa na dopamina.
O papel da dopamina no TDAH
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento descrito no DSM-5-TR como um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento.
Mas, em termos funcionais, estamos falando de um cérebro com diferenças na regulação dopaminérgica, especialmente nos circuitos de recompensa e motivação.
A dopamina não é o “hormônio da felicidade”.
Ela é o neurotransmissor da motivação, da antecipação de recompensa e da energia para iniciar e sustentar comportamentos.
Quando os níveis basais são mais baixos, tarefas previsíveis e rotineiras não ativam o sistema o suficiente.
Resultado?
Tédio rápido.
Desengajamento.
Procrastinação.
Por que o desafio “acende” o cérebro?
Competição, prazos apertados, metas ousadas e ambientes de alta estimulação aumentam a liberação de dopamina.
Para muitas pessoas com TDAH, isso não é sobre vencer alguém.
É sobre sentir ativação interna suficiente para funcionar.
Ganhar não é apenas ganhar.
É experimentar uma onda química que diz:
“Agora eu estou engajado.”
Por isso vemos muitos perfis com TDAH em contextos como:
– esportes de alto desempenho
– empreendedorismo
– ambientes criativos e inovadores
Não necessariamente pela busca de status, mas pela necessidade de estimulação.
A parte emocional que quase ninguém fala
Existe também um componente psicológico importante.
Muitas pessoas com TDAH cresceram ouvindo que eram:
– distraídas
– desorganizadas
– “intensas demais”
– “preguiçosas”
A competição pode se tornar, inconscientemente, uma forma de provar competência, não para os outros, mas para si.
Quando há vitória, há validação interna.
Quando não há desafio, pode surgir o vazio.
O risco da intensidade extrema
O cérebro com TDAH tende a operar em polaridades:
– hiperfoco ou dispersão
– obsessão ou abandono
– intensidade máxima ou paralisia
Pequenas vitórias podem virar maratonas de noites em claro.
Projetos começam com energia explosiva e podem terminar em esgotamento.
Isso não é falta de equilíbrio moral.
É dificuldade de autorregulação do sistema de recompensa.
Não é força de vontade. É estratégia.
O ponto não é “virar outra pessoa”.
O ponto é parar de lutar contra o próprio funcionamento.
Pessoas com TDAH não precisam de mais cobrança.
Precisam de:
– sistemas estruturados
– recompensas planejadas
– divisão de tarefas em ciclos curtos
– ambientes com estimulação adequada
– acompanhamento profissional quando necessário
Quando o desafio é calibrado na medida certa, o que parecia caos pode se transformar em potência produtiva.
Conclusão
Se você se reconhece nesse padrão: intensidade extrema, busca constante por desafio, vazio quando não há pressão, talvez não seja falta de disciplina. Talvez seja um cérebro que nunca foi compreendido do jeito certo.
Entender o funcionamento neurobiológico não é justificar tudo. É criar condições reais de autorregulação. E isso muda completamente a narrativa.
As informações apresentadas neste artigo visam ampliar a compreensão sobre o funcionamento do TDAH, mas não substituem investigação diagnóstica estruturada, realizada a partir de critérios clínicos e avaliação especializada.